terça-feira, 29 de maio de 2012


Uma história mal assombrada.
Bidoda era uma negra muito negra que nos fazia companhia quando nossos pais iam trabalhar. E isso era o dia todo. Todos os dias. Era a nossa empregada de confiança. Negra preta comprida e cheia de causos prá contar. Tipo inesquecível. Ela e os causos que sabia.
Das muitas histórias que ela nos contava, uma ficou “futricando” meu imaginário infantil: O dos zumbis de animais. Era assim que ela chamava.
Ela contava que os espíritos dos animas quando morriam ficavam perambulando e que quando davam de aporrinhar um cristão, tomavam a forma de neném abandonado e chorando e quando alguém penalizado a punha no colo a criança começava a ficar pesada e pesada e ia crescendo e crescendo e chorando até que o coitado aterrorizado soltava o bicho e saia correndo apavorado escutando as risadas terríveis em que o choro se transformava. Um horror.
E eu e meus irmãos íamos encolhendo, olhos grelados, chocados com a imagem de uma criança indefesa, transformar-se num bicho grande e aterrorizante.
Passaram-se os anos, transformei-me num guapo rapaz, (guapo é bom!), e em 1969, lá vinha eu voltando de Xique-Xique pela estrada do feijão, varando lentamente os 470 km de estrada de barro batido e poeirento que me separava de Feira de Santana onde morava. Tudo em minha volta era poeira, caatinga e mais poeira. Estrada sem movimento, chamada de estrada do feijão que era por onde se escoava a safra de feijão daquela região.
Desde madrugada na estrada com meu fusquinha 64 branco com o para-choque amarrado com corda de sisal que os sacolejos insistiam em descolar. E nas “costelas de vaca” como a gente chamava aquelas ondulações que se formam nas estradas batidas, o fusquinha tremia todo.
Há 43 anos viajar era uma aventura e eu fui um daqueles aventureiros. As cidades de interior sabiam das novidades através de nós viajantes. Sem televisão, só rádio e olhe lá. A comunicação com a empresa e com a família não existia. Mais isso é outro causo.
Lua clara, eu já tinha passado de Ipirá, escutei um choro de criança. 19 horas. Muita poeira. Vidros fechados. E junto com o barulho monótono do motor do fusquinha, choro de criança no meio da caatinga. Do meu lado direito, ou seja, o lado do carona inexistente. Iniciei um raciocínio meio a contra gosto:
Como pode? 70 km? Choro de criança do lado de fora do carro? No meio do nada? E nesse negócio, a criança, ou seja lá o que tenha sido, chorou de novo. E nesse intervalo de raciocínio, já tinham transcorrido alguns quilômetros, pois eu ia aí com uns 60 ou 70 km por hora.  E aí foi osso. Cabelo subiu, (nessa época eu tinha mais cabelo), coração apressou, travei o pezão no acelerador, poeira cobriu.
E nesse sufoco todo, um cavalo branco ultrapassou meu fusquinha pelo meu lado, como se eu só estivesse a 5 km por hora ou com o fusquinha parado.
E aí eu não morri na hora de medo, por decisão Divina.
Tudo voltou à mente. A antiga empregada e suas histórias de zumbi de bicho e tudo o mais. Foi osso! O difícil foi voltar a falar quando cheguei enfim em casa.
Anos depois, na estrada para Campo Formoso em outro lado da Bahia, (Bahia é um mundão!) descobri a duras penas que existe um sapo que dá um grito que pode se assemelhar a um choro de criança.  Pode explicar o choro que ouvi.
Mas até hoje não achei explicação para o cavalo branco.

Durval

2 comentários:

  1. kkkk... Esse é um dos "causos" que mais gosto de ouvir quando estamos reunidos e o velho resolve contar "histórias das antigas".
    Adoro seus contos. Estou sempre fuçando por aqui.
    Saudades.
    Beijos,
    Paulo.

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    1. Valeu pela passagem aqui pelo blog querido sobrinho.
      Tô escrevendo alguns causos antes que fique velho demais e a memória fraqueje. Beijos prá todos!

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