COISAS DE HOJE: No lado de cá somos dois. Apenas nós dois. Eu e a Francisca, doravante intitulada de Fca, por economia de digitação. Foi corajosa, levando em conta que vem de uma família numerosa, saudavelmente barulhenta e ativa. Aqui tem de tudo menos barulho. Só nossos pensamentos, nossas birras, nossos “cala a boca Huck!”. ( Huck é o nosso poodle toiota preto, companhia de todos os momentos). E viver a dois no isolamento é uma aprendizagem diária. E nossos horários são ditados pela luminosidade do sol. Explico: pela manhã, 05:30 junto com o sol, nossa gatinha branca moradora do 1° andar do duplex nos acorda. Invariavelmente. Pontualmente. E o Huck que dorme conosco, nos avisa naturalmente cutucando com suas nobres patas de unhas compridas, que a gatinha ta arranhando a porta. Como se o aviso fosse necessário. Aos domingos e feriados, temos uma colher de chá: Eles cumprem o horário fielmente. E à noite, o escuro domina o mundo. Inunda tudo. Nos isola do resto de tudo. Jantamos sempre no mais tardar às 17:00 e nos fechamos em nosso mundo. Isolados de tudo. Dormimos cedo. E em paz.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Veleiro

COISAS DE ONTEM:
Passei minha infância em Recife, num bairro no final da Avenida Norte, chamado Macaxeira. De lá, daqueles dias povoados de sonhos e fantasias, surgem tipos e histórias que se eu não contar, levarei comigo quando a viagem terminar e essas memórias estarão perdidas. Apenas duas outras testemunhas vivenciaram esses momentos e causos. Dôga e Getúlio, meus dois outros irmãos mais novos. Mas eles também estão na estrada, seguindo suas viagens.
De todos os tipos que conheci, um surge imponente e fantástico:
VELEIRO
Quase toda a tarde, lá vinha aquela figura trôpega, com a roupa em trapos esvoaçantes, memórias de antigo paletó,desbotado tingido pelo tempo e por tantas nodoas da vida. O andar ondulante. Cambaleava como para tomar todo o espaço da rua, mas os passos eram firmes e decididos. Era alto e magro, pele amarela cabelos lisos e compridos, unhas grandes e sujas tingidas de nicotina, mãos e braços enormes. Pés descalços calejados e partidos em mil estilhaços ali pelos calcanhares.
Olhos grudados. Fechados para sempre.
Empunhava a guisa de bengala ou bastão, uma enorme vara grossa e na ponta uma arruela de ferro para impedir o desgaste de tanto contato com o chão. Cruzada no peito levava uma bolsa de pano, onde acondicionava seus mantimentos colhidos entre os de bom coração que sempre achavam um pão dormido, “umas bolachas para o Veleiro”.
A sirene da fábrica o ajudava a saber das horas. E sabia para onde ia. Sabia em que trecho da rua estava, e na frente da casa de quem.
Seus gritos eram ouvidos de longe; “Esmola pelo amor de Deus!”. A voz rouca de tantos anos de gritos dentro de sua escuridão. Não tinha consciência da distância que o separava dos outros e das coisas e por isso esmolava alto. Garantia que a rua toda e também quem estivesse dentro de casa o ouvisse.
E lá vinha Veleiro. Ninguém sabe de onde veio o apelido. Ele tinha um passado... Foi homem, operário na fábrica. Teve esposa com certeza. Filhos ninguém sabe. Falava do antigo lar com tristeza, com uns poucos que o escutavam, nos raros momentos que não estavam zombando dele. Quando deitavam um pouco de tempo para ouvir uma história de traição e abandono. Como tantas por aí. E aí ele repetia com paciência esperando no término um agrado, uma esmola. A história só os mais antigos confirmavam. Veleiro trabalhou na Fábrica, e segundo ele, cegou com produtos químicos na estamparia da fábrica. Outros diziam que foi catarata. Perdeu a visão de vez. Daí soube que sua mulher começou a sair com um gerente da fábrica de quem ele passou a nutrir um crescente ódio. Mencionar o nome desse gerente por perto era considerado afronta. E Veleiro reagia com todos os nomes feios que sabia naquela época.
A mulher o deixou e ele passou a viver de mendicância, esmolando pelas ruas do seu bairro que ele conhecia tão bem e se orgulhava de demonstrar, quando a gente perguntava: Veleiro! Sabe em que rua estás? Aí ele dizia: “Tô na rua Ida Maria, ali mora o Seu Luís relojoeiro!”. “Pra lá é a Carrapateira!”.Apontando com seu cajado.
Prá mim, sempre foi uma imagem mitológica. Sempre povoou minhas lembranças. Parecia mesmo um velho e abandonado veleiro, altaneiro, balançando ao vento as velas pra lá e pra cá com sua capa de retalhos, gritando sua dor. Nos momentos mais íntimos tive medo do seu destino. Recusado e banido dos seus iguais, vivendo na calçada do Mercado, em frente à fábrica onde trabalhou tantos anos, bêbado, vivendo aos poucos morrendo aos poucos. Esquecido e só. Nem outros pedintes havia no bairro para preencher a solidão das suas noites frias. Ninguém para falar. Só zombarias dos que se intitulavam de homens, mas na verdade não eram humanos. Macaxeira não tratou Veleiro com humanidade.
Mas embora não sirva como consolo, pelo menos uma criança daquelas que o provocava, guardou sua imagem na lembrança e enquanto essa criança viver, sua figura imponente continuará a clamar por justiça e o grito de Veleiro continuará a ecoar no tempo e no espaço: “UMA ESMOLA PELO AMOR DE DEUS!”.
E o nome do gerente, por respeito a Veleiro, não direi.
Durval.
Passei minha infância em Recife, num bairro no final da Avenida Norte, chamado Macaxeira. De lá, daqueles dias povoados de sonhos e fantasias, surgem tipos e histórias que se eu não contar, levarei comigo quando a viagem terminar e essas memórias estarão perdidas. Apenas duas outras testemunhas vivenciaram esses momentos e causos. Dôga e Getúlio, meus dois outros irmãos mais novos. Mas eles também estão na estrada, seguindo suas viagens.
De todos os tipos que conheci, um surge imponente e fantástico:
VELEIRO
Quase toda a tarde, lá vinha aquela figura trôpega, com a roupa em trapos esvoaçantes, memórias de antigo paletó,desbotado tingido pelo tempo e por tantas nodoas da vida. O andar ondulante. Cambaleava como para tomar todo o espaço da rua, mas os passos eram firmes e decididos. Era alto e magro, pele amarela cabelos lisos e compridos, unhas grandes e sujas tingidas de nicotina, mãos e braços enormes. Pés descalços calejados e partidos em mil estilhaços ali pelos calcanhares.
Olhos grudados. Fechados para sempre.
Empunhava a guisa de bengala ou bastão, uma enorme vara grossa e na ponta uma arruela de ferro para impedir o desgaste de tanto contato com o chão. Cruzada no peito levava uma bolsa de pano, onde acondicionava seus mantimentos colhidos entre os de bom coração que sempre achavam um pão dormido, “umas bolachas para o Veleiro”.
A sirene da fábrica o ajudava a saber das horas. E sabia para onde ia. Sabia em que trecho da rua estava, e na frente da casa de quem.
Seus gritos eram ouvidos de longe; “Esmola pelo amor de Deus!”. A voz rouca de tantos anos de gritos dentro de sua escuridão. Não tinha consciência da distância que o separava dos outros e das coisas e por isso esmolava alto. Garantia que a rua toda e também quem estivesse dentro de casa o ouvisse.
E lá vinha Veleiro. Ninguém sabe de onde veio o apelido. Ele tinha um passado... Foi homem, operário na fábrica. Teve esposa com certeza. Filhos ninguém sabe. Falava do antigo lar com tristeza, com uns poucos que o escutavam, nos raros momentos que não estavam zombando dele. Quando deitavam um pouco de tempo para ouvir uma história de traição e abandono. Como tantas por aí. E aí ele repetia com paciência esperando no término um agrado, uma esmola. A história só os mais antigos confirmavam. Veleiro trabalhou na Fábrica, e segundo ele, cegou com produtos químicos na estamparia da fábrica. Outros diziam que foi catarata. Perdeu a visão de vez. Daí soube que sua mulher começou a sair com um gerente da fábrica de quem ele passou a nutrir um crescente ódio. Mencionar o nome desse gerente por perto era considerado afronta. E Veleiro reagia com todos os nomes feios que sabia naquela época.
A mulher o deixou e ele passou a viver de mendicância, esmolando pelas ruas do seu bairro que ele conhecia tão bem e se orgulhava de demonstrar, quando a gente perguntava: Veleiro! Sabe em que rua estás? Aí ele dizia: “Tô na rua Ida Maria, ali mora o Seu Luís relojoeiro!”. “Pra lá é a Carrapateira!”.Apontando com seu cajado.
Prá mim, sempre foi uma imagem mitológica. Sempre povoou minhas lembranças. Parecia mesmo um velho e abandonado veleiro, altaneiro, balançando ao vento as velas pra lá e pra cá com sua capa de retalhos, gritando sua dor. Nos momentos mais íntimos tive medo do seu destino. Recusado e banido dos seus iguais, vivendo na calçada do Mercado, em frente à fábrica onde trabalhou tantos anos, bêbado, vivendo aos poucos morrendo aos poucos. Esquecido e só. Nem outros pedintes havia no bairro para preencher a solidão das suas noites frias. Ninguém para falar. Só zombarias dos que se intitulavam de homens, mas na verdade não eram humanos. Macaxeira não tratou Veleiro com humanidade.
Mas embora não sirva como consolo, pelo menos uma criança daquelas que o provocava, guardou sua imagem na lembrança e enquanto essa criança viver, sua figura imponente continuará a clamar por justiça e o grito de Veleiro continuará a ecoar no tempo e no espaço: “UMA ESMOLA PELO AMOR DE DEUS!”.
E o nome do gerente, por respeito a Veleiro, não direi.
Durval.
E o sonho aconteceu
Em muitos momentos de devaneio, o pensamento fugia para um lugar onde havia sossego, onde eu veria a vida passar sem interferência minha. Pássaros e plantas, paz e harmonia.
E aconteceu. Eis-me aqui, há três anos cercado da natureza que eu tanto desejei.
Muito feliz. São os melhores momentos da minha viagem. Inesquecíveis momentos de paz e serenidade.
Nenhum dia é igual a qualquer outro. Na natureza não há repetição. E acostumar com isso foi o negócio. E o convívio com a natureza, de perto, diário, pisando na terra, vendo e convivendo e compartilhando o mesmo espaço com os animais e plantas traz em si uma experiência única.
Pois, cuidado com o que deseja. A gente recebe. Integralmente. E os relatos que postarei mais tarde, falarão de alguns dos bocados que acompanharam de carona o sonho realizado.
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