terça-feira, 13 de outubro de 2009

Baixou pesado

Papai tinha uma fixação por Seção Espírita.
Não era estudioso da filosofia. Não tinha nenhuma intenção aparente de professar, se inteirar ou filiar-se á religião. Se ligava em seção de incorporação, aquelas reuniões onde os que foram daqui retornam através de abnegados obreiros, para se ou para nos orientar quanto às coisas daqui e de lá.

Puxando pela memória dá prá lembrar de uma série de oportunidades onde ele tentou se enturmar nesse lance. Tentativas sempre mal sucedidas. Ou pelo menos, descontinuadas.

Uma delas a primeira que eu tomei parte foi inesquecível.

Uma empregada nossa, acho que a Cecília, vinha falando que lá em Nova Descoberta havia um Centro Espírita famoso coisa e tal e o papai ficava sempre empolgado.

Uma tarde qualquer, lá fomos eu o papai, a mamãe e a empregada, rumo ao Centro Espírita. Lá nos altos de Nova Descoberta. Pros que se lembram, o caminho de atalho era por dentro da mata de eucaliptos, morros a fora, um sobe e desce, uma caminhada enorme.

Lá chegando, numa sala grande, lá no fundo, uma mesa e já cercada de pessoas sentadas. A platéia, dividida por uma cancela baixa, ficava voltada para a mesa grande, em bancos compridos e coletivos.

Suados e esbaforidos, tomamos assento e logo um cara grandão deu sinal de estar possuído de uma entidade, com aquelas contorções da face e alteração na voz.

Papai ficou todo emocionado e aceso. Olhos presos no interesse da cena. Valeu à pena a caminhada. Uma Seção Espírita de verdade! Era tudo o que ele queria.

Daí o cara que estava possuído perguntou à platéia se alguém queria fazer uma pergunta.
Papai se mexeu, mas uma mulher na nossa frente se acusou mais rápido. Foi a conta.
O Espírito através do médium, desceu a ripa! Mais ou menos assim ele começou se dirigindo à mulher que tinha mencionado fazer pergunta:

- Há! Você tá aí! Eu te vi ontem! Tô sabendo! Anda botando “gaia” no teu marido! Tem vergonha nessa cara! Você e aquela sua amiga pretinha!
- E você aí do lado dela que tá “surrindo”? Tá “surrindo pru que”? Tu também “num” é “fulô” que se cheire! Tô sabendo dos seus “podres” todinhos!
- E tu “cabra safado” Tás aí se escondendo aí por trás mas
tu também tem duas raparigas lá no Alto do Mandú...
Papai foi ficando amarelo, se escorregando no banco prá ficar mais baixo, aproveitou uma leva de pessoas que estavam chegando e nos puxou pra fora sorrateiramente prá não chamar a atenção, mas não teve jeito.

E a gente já tava atravessando a rua e ainda ouvíamos nas nossas costas:

- Ei você! "Num" adianta correr! Aqui eu descubro tudo! Ei! Volte aqui! Tá com medo cabra “sem-vergonho!”. “Num é home não”?

A volta pra casa foi um silêncio tenebroso.
Ai de quem desse ou esboçasse uma risada! Papai ia só à frente, mata a dentro, entardecendo, e a gente atrás estourando por dentro numa gargalhada incontida, sem contar que a mamãe estava realmente interessada na razão da fuga estratégica.
E quem tinha coragem de perguntar?

Durval