quarta-feira, 12 de agosto de 2009

É osso!!!


É osso!
Nas minhas viagens de carro pelas cidades do sertão, sempre que eu via aquela casinha branca lá no alto da serra, isolada, pequenininha, quase escondida pelas palmeiras, eu me perguntava qual a cara que o morador fazia quando voltasse para casa, subisse aquela ladeira toda e descobrisse que tinha esquecido de comprar o pão. Hoje eu sei. É osso.
É o que acontece por aqui. Chega-se no portão e se descobre que não trouxe a chave. Aí é osso. A gente vai buscar a chave, volta pro portão, deixa passar seja lá quem foi passar e quando a gente volta, “coên” alguém aperta a buzina da campanhinha.
A movimentação de quem mora numa casa normal aqui é multiplicada pela distância das coisas. Tudo fica longe da gente. Duas saídas na casa. O chinelo sempre está na outra. O boné na outra. A bolsa ficou lá em cima. Brincadeira não, mas nesses 3 anos gastei nesse vai e vem, 5 raides, daquelas fornidas, grossonas, e 2 sandálias tipo mocacim. Isso porque aprendi a costurar as tiras das raides e prolonguei um pouco a vida útil delas. Desgastam-se no calcanhar, com o arrastar dos pés que a gente adquire com o passar do tempo.
A gente começa a entender e adquirir aquele andar lento e displicente que vemos nos homens que vivem no interior. É que a gente descobre que não vai vencer nunca as distâncias. Não tem jeito. Não adianta correr. As chaves vão sempre estar do outro lado de onde estivermos e pronto. E a cara que a gente aprende a fazer, a expressão, é de quem não tá nem a fim de saber quem pintou a barata.
Aqui também a gente começou a entender que o ditado que diz “O trabalho dignifica o homem” foi criado por alguém que morava em sítio. Tudo dá trabalho. Tempo de manga é osso. São enormes graças a Deus. E pesadas. E pra colher é osso. E tem que colher porque senão elas caem feito um petardo. Imagine uma manga de 1 quilo ou por aí caindo de 10 metros nas costas do cidadão! É osso! E sempre vai ter casa de maribondo por perto. Quando a vara cutuca a manga, lá vem maribondo. E a patroa diz: “Tem que tirar essa casa de marimbondo daí pra evitar acidente”! É osso! E pra arrumar a tocha pra queimar a casa aí cadê a vara? Tá do outro lado! cadê os fósforos? ficaram na cozinha! (do outro lado).
Também com essas caminhadas e exercícios compulsórios, acrescentei muitos anos de capacitação física ao meu veículo cansado aqui.
Eu era hiperativo. Aqui fiquei meio lento, meio “sabe-que-eu-não-sei”. Serviu para me desacelerar. Mas quem nos visita, vê aquelas redes na varanda, muita sombra e outros tantos locais bons para se armar outras redes, comenta: “Local bom pra dar uma cochilada!”. E a gente pensa com nossos botões: “É... Vem morar aqui, meu irmão!”. É osso!
Durval

Quem se lembra?



Quem se lembra?

Quem se lembra? Era dia de feriado ou domingo? Um dos dois devia ser, pois a mamãe tava em casa e era lá pelas três da tarde. E mamãe trabalhava de uma e meia da tarde às dez da noite, com folga de meia hora entre cinco e meia às seis horas. E nesse dia ela estava em casa. E quem trouxe a notícia? Quem se lembra quem trouxe a notícia? A notícia corria ligeira, principalmente quando era de morte. E essa era. De afogamento.
Quem se lembra de quem foi? Com certeza foi de um menino como a gente. Um daqueles que desbravava o mundo, que não temia escuridão, não temia a floresta nem os descampados, não temia as barreiras nem subir em árvores. Não temia brincar de caçar passarinho com espingarda de verdade, daquelas de socar. Daquelas chamadas papo amarelo. Não temia tomar umas boas surras quando aparecia de volta em casa sem saber explicar direito porque não ficou nas vistas da mãe. Não temia os rios Não temia o açude. O grande e negro açude. Que lavava as roupas das lavadeiras, que matava nossa sede, que jorrava nas nossas torneiras, que nos refrescava em intermináveis banhos clandestinos, escondidos da mamãe. O açude que recebeu tantas vidas nos seus braços frios.
E lá fomos nós buscarmos a novidade. Quem se lembra? Fomos todos os curiosos do momento. Empregada, vizinhos eu com certeza e muito provavelmente o Doga. Getúlio era muito pequeno nesta época, e já estava mais ou menos lá pela três da tarde. Papai e mamãe não entravam numa aventura dessas. Melhor. Íamos livres correndo na frente da leva de vizinhos antecipando a vida.
Descemos a Rua do Açude, aquela que ficava depois da Rua do Correio, descendo pela Carrapateira e dobrando lá no fim da venda do Seu Castilho. Quem se lembra daquele velho cumprido com um caroço na nuca que tinha uma mercearia e se tornou pai da Emilinha Castilho aquela que casou com Jackson do Pandeiro? Pois é. A Rua do Açude era uma ladeira que dava lá pros fundos da montanha que ficava por trás da fábrica. Antes da entrada do Córrego do Jenipapo.
Depois que terminava a ladeira com correr de casas, ficava um lindo caminho, cheio de bambus, que faziam arco em alguns trechos da estrada.
Quem se lembra quantas pessoas já estavam lá? Naquele trecho do açude usado pelas lavadeiras, tinha um alto, e muitas pessoas e muitos meninos estavam espalhados, olhando o movimento. Olhando a notícia.
Um menino tinha desaparecido no açude. Tomava banho bem ali onde as pedras eram “escorreguentas” por causa do causa do sabão das lavadeiras. Havia um tronco onde todo mundo fazia de trampolim. Quem se lembra dos pulos que demos ali? Quem se lembra dos escorregões que demos no tronco ensaboado e as quedas desastrosas às vezes de pernas abertas? Pois é. E todos os ovos se salvaram para contar a história.
Bem ali de lado de onde a gente tomava banho, o capim se aglomerava e a água escurecia. Era fundo. Fundo e perigoso, pois a sensação que me dava era de ser “puxado” para aquele local. E dizem que foi ali que o garoto caiu.
Os bombeiros da fábrica já estavam lá. Quem se lembra dos bombeiros? Eram formados pelos pais dos nossos amigos, pelos nossos vizinhos, e faziam parte da turma de Bombeiros.
A fábrica, como era chamada, mantinha essa equipe disponível para atender os principais problemas da comunidade e principalmente da própria empresa.
Incêndios, corta de árvores, e toda sorte de coisas eles cuidava. De afogamento também.
Eram eles que se atreviam mergulhar naquele açude traiçoeiro. Estavam usando uma canoa e procuravam por todo açude. Eu na minha ignorância infantil não entendia por que o menino se afoga aqui e eles vão mergulhar lá longe. Me disseram que o açude troca o corpo de lugar. Vixe! que coisa tenebrosa! E Quem se lembra quantas noites que a gente ia ficar de olho duro sem sono, pensando no menino afogado?
Mas voltando ao causo, alguém, com certeza um dos bombeiros falou depois de muito pelejar: “Tem que chamar o Pai do Açude”. Outros concordaram. O murmúrio foi geral. Eu já tinha ouvido falar vez em quando sobre o Pai do Açude. Diziam que ele morava lá pras bandas de Nova Descoberta. Tinha fama de descobrir pessoas afogadas. E nessas alturas, já era umas quatro e meia da tarde. A turma ficou inquieta. Inquieta e ansiosa. Os bombeiros largaram mão de mergulhar e todo mundo sentou-se por ali pra ver o desenrolar.
Tava anoitecendo quando vinha uma correria de criança antecipando um grupo de pessoas. Chegou o Pai do Açude. Um moço baixo, moreno escuro, cara de índio, profundamente sério, muito forte e musculoso, cabelos pretos lisos rentes à testa. Ninguém ficava muito perto dele. Nem puxavam papo com ele. Ele não olhava pra ninguém. Parecia que não tinha ninguém ali. Ele se bastava. Ninguém importava. Só a missão que o trouxe ali.
Quem se lembra de onde saiu a cuia de coco? E a vela? Apareceram não se sabe de onde, naquele canto ermo de casas e moradias. Mas tava lá. Passaram rapidamente e cerimoniosamente para as mãos do Pai do Açude. Ele já tinha tirado a roupa, e estava de calção preto colado ao corpo.
Não vou nem perguntar quem se lembra porque aquele foi um momento realmente inesquecível e quem lá estava não vai se esquecer nunca:
Já escurecia quando o Pai do Açude ajoelhou, rezou, acendeu a vela naquele meio de mundo, colocou a vela no centro da cuia, se benzeu, entrou no açude até no meio da cintura e colocou a cuia com a vela na água. Não empurrou. Não deu direção. Só depositou aquela oferenda nas águas escuras e frias do açude. Quem se lembra do frio que fez naquela hora? Frio estranho fez os olhos da gente procurar o do outro como companhia.
A cuia com a vela, ficou um tempo parada, e iniciou vagarosamente a descrever um circulo cada vez maior e tomou uma direção firme pra frente, pra dentro do açude. Foi, foi, foi, e parou. Parou e ficou rodando sobre ela mesma. Aí o Pai do Açude mergulhou.
Uma eternidade depois e que imagem terrível. Surgiu de dentro das águas, o Pai do Açude com uma criança nos braços no escuro da noite que caiu, iluminado aqui e acolá por alguns faróis hesitantes da equipe dos bombeiros. Momento de tristeza.
Quem se lembra daquele grito da mãe quando viu o menino nos braços do Pai do Açude? Restava a esperança que o guri tivesse brincando em outras peraltices e paragens e de repente fosse aparecer e tudo aquilo fosse um pesadelo. Vê-lo nos braços do Pai do Açude destruiu de vez suas esperanças.
Em silêncio, voltamos para casa. Uns ainda arriscaram umas explicações sobre o método da cuia. Outros nem tiveram animação para segurar o papo.
Na minha mente permanecia aquela visão impressionante daquele momento da retirada do menino das águas do açude.
E aí caras!!! Quem se lembra?

Durval