domingo, 21 de março de 2010

Chove chuva...


Viver na área rural não é fácil. A gente da cidade não tem nem idéia do que é ficar olhando as nuvens se formarem e o vento levá-las para longe.

Não sabemos do bem precioso e difícil que a água é. A gente abre a torneira e pronto. Sai água. Tem que sair. Nunca deixou de sair. Nunca vai secar. Se não sair, tem cano entupido. Ou "neguinho" esqueceu de encher a caixa. Eu vivi assim minha vida toda.

Passou o tempo de chover.

Ano passado, começou a chover em final de janeiro, início de fevereiro. Época normal. Veio no período tradicional. Cacimbas cheias, plantas verdes, lamas e tudo que um inverno de "responsa" nos trás.

Esse ano, tava perigando. Pingos isolados em fevereiro. A minha última esperança era de que as predições dos mais velhos, cuja observação da natureza tem séculos de história, se confirmassem. "Chovendo no dia de São José, tem inverno". Ou começa no dia de São José ou a seca vai se estabelecer.

Choveu no dia 19, sexta feira, sábado e a noite toda de ontem para hoje.

Sem calor, esperança de fartura, de continuidade de abastecimento de água no sítio. Muito bom.

Aqui no pedaço, temos uma cacimba água saborosa, cristalina, abundante. No pico do verão, ainda dispunhamos de 3,5 metros de lâmina dágua. Temos um razoável sistema de irrigação para as plantas e grama, e um sistema razoável e econômico de reposição via cata-vento.

Porém nada que possa desafiar uma estiagem rigorosa. E aí a gente começa a sentir na pele, mesmo que muito de leve o sofrimento do homem do sertão, que tem sua plantação, sua subsistência fustigada pela seca. Ver seus animais de criação, quase sempre animais de estimação sofrendo pela sede e não poder fazer nada.

É um momento doloroso. E todo o dia a esperança se renova no horizonte, com núvens escuras que o vento dissipa. Daqui a pouquinho tá brilhando o azulão do céu, sem uma nuvemzinha sequer. Sol rachando o solo queimando as plantas e secando os poucos reservatórios naturais.

Com dinheiro, fura-se um poço profundo. Sem dinheiro nada se pode fazer.

E aí a gente começa a transferir nossos anseios, nossos medos, nossa insegurança, para uma Força Maior.

Se nada podemos fazer, se dependemos totalmente da natureza, do acaso, dos fenômenos do El Niño, quem poderá nos ajudar?

Aquilo que você ama está em risco; suas plantas, seus animais, sua permanência naquele local. tudo que é seu está em risco. E aí? quem já sentiu isso na pele?

Na cidade ninguém vai tirar você da sua casa, seu animal nunca sentirá sede. Poderá até ter problemas de abastecimento momentâneo d´agua no bairro mas terá alguém resolvendo por você. Síndico, Prefeitura, Cia de água e Esgotos etc. Mas e quem faz pela gente daqui?

Isso pode explicar a forte religiosidade do homem do campo. Desenvolve uma fé muito própria na Providência Divina e a Ela recorre nos seus momentos de sofrimento e de esperança.

Com uma oração de esperança num ano de chuva regular e uma lágrima teimosa pedindo passagem, vou ficando por aqui.

Durval