
Três irmãos. Diferença de 6 anos entre cada. O humor, não sei de quem herdamos. Papai falava pouco. O mais velho de nós teve mais tempo de conhecer o pai antigo, aquele que brincava com os suspensórios, que punha a calça lá em baixo do sovaco e saia por ali. Cantarolava inspiradamente, músicas da sua época de moço, que aprendemos com a repetição. Recitava algumas poesias. A da “nuvem”, A da “Bota me Bota...”
De todas, decorei o “ Francisco Meu Pai” Sempre me dava vontade de chorar. Lembro com saudade de músicas como “O Jornaleiro” que foi alvo de uma certa discussão sobre sua autoria e meus filhos aprenderam comigo a canção “Papai chame Mamãe”. Tem também aquela “Mulher perdida, na miséria morre...”
Com o tempo foi se enfurnando em si mesmo. Que sabíamos nós de seus dramas de seus conflitos. Nem sabíamos que pais sofriam disso! Para mim, pai era inalcançável. Aliás, o que seria mesmo conflitos? Mundos distantes, separados, intransponíveis.
Mamãe me transmitiu o gosto pela música. Não que conhecesse algum instrumento. Mas gostava de música e sempre me falava de seus cantores favoritos, Chico Viola, Carlos Galhardo... Dói meu coração velho quando lembro da melodia e dos versos: “Adeus palavra pequena, mas grande na emoção...” Que enchiam seus olhos de lágrimas e eu nunca soube por quê. “ A Casa Branca da Serra” ela também gostava.
Mas humor mesmo, não lembro de onde trouxemos. E o tempo todo que estávamos juntos era de gozação.
Íamos noite a fora, enchendo o saco um do outro na risadagem até o papai ameaçar do outro lado da parede: “Olha que eu vou aí!”
Foram momentos inesquecíveis, onde alguma coisa muito forte nos unia. Tomávamos um refrigerante antigo chamado “gasosa” de maçã ou pêra, com empada de camarão... juntávamos pólvora de restos dos fogos dos festejos juninos para estourar no meio do quarto, recepcionando um de nós desavisado; amarrávamos cordão nas panelas e lá pela madrugada reproduzíamos o toque do mais novo fantasma das panelas.
Depois, mais velhos, já casados, aterrorizávamos nossas recém esposas, torrando nossas parcas economias domésticas comprando e montando aeromodelos destruídos no primeiro vôo.
Hoje não somos mais três. Somos filhos netos e para os apressados lá vem por aí bisnetos. Crescemos. Não em tamanho. Em vida.
A vida com suas propostas de aprendizagem nos conduziu para caminhos diferentes. Formamos famílias. Famílias separadas por distâncias às vezes geográficas.
Vai aqui um abraço de saudade aos dois que me completaram tanto tempo e cujos ombros fazem falta. Vai aqui um reconhecimento de que foram responsáveis pelos momentos mais marcantes da minha infância e juventude.
Abraços do velho viajante para o Doga e para o Getúlio
Durval
