segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Perijaldo o sabe-tudo.


Bom tempo aquele onde a inocência começa a dar lugar a uma crescente curiosidade sobre tudo. E tínhamos lá no nosso bairro, o nosso arquivo ambulante. Ele sabia ou naquela época parecia saber de tudo. Sempre à tarde, nos reuníamos numa sombra qualquer, numa calçada de algum vizinho, pra escutar o Perijaldo.
Morava na carrapateira, no mesmo lado da Venda do Seu Nelson onde a calçada fazia o primeiro degrau. Era um pouco mas velho que nós e sempre disposto a um papo. A gente se impressionava com o conhecimento do Perijaldo, sobre tudo. Sabia distâncias da terra a lua, e um montão de medidas astronômicas. Sabia quem tinha dado o maior salto do mundo, maior bolo, maior tantas coisas que a minha memória não guardou. E o que ele não sabia, devia inventar. Quem realmente ia contestar? Como a gente se considerava burro! Como que a gente ia saber um negócio daquele?
Um belo dia descobrimos o Perijaldo lendo um livro surrado e ele não conseguiu resistir à tentação de exibir a posse daquela preciosidade. Era sua riqueza. Tinha orgulho da sua posse. Era a fonte do seu conhecimento. O livro, uma espécie de almanaque tipo guiness book, grosso, mal tratado, sem capa, trazia uma coletânea de fatos e feitos medidas e distâncias curiosas e inusitadas.
Tava explicado! O Perijaldo passava horas decorando as informações daquele livro, e nos papos, esperava o momento oportuno ou dava um jeito de entortar o assunto para soltar as pérolas do seu “conhecimento” deixando os pobres mortais deslumbrados com a erudição do amigo vizinho.
Curtimos muito a novidade, mas o Perijaldo perdeu o posto do cara mais inteligente que a gente conhecia. O livro sim era o bicho. Perijaldo só repetia o que lia. E isso a gente também podia fazer.
Voltou a assumir o posto, o Milton Marrequinha, assim "carinhosamente" chamado por ser corcunda. Mas tinha poucos amigos porque era chato.
Durval