sexta-feira, 14 de agosto de 2009

E choveu anum preto.


Eu como toda pessoa mais ou menos normal, tinha conhecimento de que um passarinho deve aprender a voar. OK. Até aí tudo bem. Só que eu nunca tive nada com isso. Nunca foi envolvido nesse processo, que vou logo avisando, é de profundo mau gosto para não dizer deprimente.
A criança que está aprendendo a andar, se não consegue de primeira, tem o restante da vida para aprender. Cobra aprende a se arrastar sem pressa porque tem o restante da vida para tentar. Peixe não morre afogado se quando novinho, tiver um desempenho medíocre na natação. Mas com o passarinho o negócio é mais embaixo. Se ele não voa, se ferra. Cai do ninho e não sobe mais. A mãe não aprendeu a pegar o bichinho no bico e levar de volta pro ninho para uma segunda chance. E o bichinho vai morrer de inanição ou nas garras de um predador qualquer. A mãe e o pai ficam um tempão piando, com gritos enormes, tentam, tentam e é muito deprimente presenciar essa cena. Usam comida no bico para incentivar o filhote caído a voar. Vão até pertinho dele, mas não podem voar por ele, nem reconduzi-lo ao ninho seguro, de onde ele não devia ter saído ainda.
OK. Se alguém, ler esse blog fora minha mulher e minha filha, (o que é altamente improvável dado o pequeno interesse que ele representa para a comunidade de blogueiros ) pode argumentar: OK bobão. Isso sempre aconteceu desde que o Dono da Casa criou as aves. Tudo bem. Só que nunca eu tinha entrado nessa de assistente desse negócio mal administrado.
Uma semana dessas, eu estava cuidando da minha vidinha mais ou menos quando a Fca pegou das garras de uma das nossas gatinhas, um filhote de anum. Já estava morto.
Demos uma bronca na gatinha, pensando que ela tinha ido até o ninho atanazar a vida dos anuns. Enterramos. E aí os gritos insistentes dos anuns adultos ficaram insuportáveis.
O Cauã, jovem que nos ajuda na limpeza do pedaço, veio com outro. Nova explicação: Caiu do ninho. E aí? Vamos tentar botar ele de volta. Peguei escada alta, Cauã subiu até onde pôde e não alcançou o ninho. Tudo isso com os gritos e alaridos dos anuns adultos.
Solução: Peguei um chapéu de palha, fiz uma armação de arame e amarramos o chapéu o mais alto que conseguimos. E colocamos o anum filhote dentro do chapéu de palha. Tudo resolvido.
Que nada! Apareceu outro pulando pelo chão! Aí entendi: Tinham decretado que era hora dos filhotinhos saírem do ninho.
Pura barbeiragem de quem decidiu. Estavam muito pequenos. Foi um tal de cair anum e correr entre as touceiras de plantas, sob os gritos angustiantes dos anuns adultos, para afastar a gente e os gatos dos seus filhotes e para incentivá-los a voar. Voar como? se eles estavam com as asas pequenas ainda para o tamanho deles? E filhote de anum é grandão e pesadão e com aquelas asinhas curtinhas, não voavam nunca.
E eu me meti a ajudar, corre e pega o bicho, segura as gatas.
Momento para explicação: Aqui no sítio eu trouxe uma herança do meu filho de sete gatinhas. Delas, duas são caçadoras juramentadas. Não passa nem borboletas que elas querem pegar. A “de cicatriz” é mais atenta. Qualquer coisa que se mexa ela percebe. Porém, se desinteressa mais fácil A “verdinha de rabo-quebrado” é mais ligeira. Ligeira e insistente. Se pegar qualquer coisa, ninguém a alcança da carreira que ela dá. E eles estavam caindo no território dessas duas. Então imaginem o trabalho que eu tive de manter esses anuns atrapalhados fora do alcance delas.
Passei a usar o “SPA dos passarinhos”, local aqui no sítio destinado a abrigar pássaros atrapalhados que se acidentaram no seu afã de passarinhar, hospedando os pequenininhos isolando-os dos gatos. Só que eles estavam muito pequenos e não se alimentaram de ração de passarinho. Alpiste, paisso, xerém etc. Nem com banana liquidificada bem ralinha com água, no bico com uma seringa pequena, deu certo. Morreram dois de inanição. Fraquinhos por falta de alimentação.
E continuava o berreiro de anuns, a cada novo filhote que aceitava o incentivo dos pais trapalhões e se aventurava voar antes da hora. E continuou as quedas dos bichinhos. Aqui e acolá, o Cauã vinha com outro na mão. Sem exagero, eu e Fca contamos no final, uns oito mal sucedidos abandonos de ninho.
Nesse meio tempo, depois de três dias de aflição, ocorreu-me que não podia fazer nada, que os filhotes iam ter que se virar sem mim como tinham feito desde o começo das eras, e que a minha única contribuição seria recolher os pequeninos e passá-los para o outro lado do muro onde não tem gatos. O sítio do nosso lado está abandonado e com vegetação alta. E aí eu abdiquei do papel de ajudante da natureza. Realmente não sei se os que enviei delicadamente para o outro lado do muro sobreviveram. Com certeza tiveram mais chance do que no nosso lado devido aos nossos sete gatinhos que embora bem alimentadas graças a Deus, teimarem em exercitarem seus dotes de caçadores.
E eu aprendi a não me meter com o modo que a vida cuida de si mesma.
Essas lições de humildade ante um processo que não tem nada de romântico, que não existe pra ser justo aos nossos olhos, são realmente desconcertantes. Meu julgamento de justiça, de certo e errado não tem eco no sistema da natureza, onde o mais fraco paga pela sua má formação. A sobrevivência dos capazes, dos mais fortes embora eu sempre soubesse que faz parte da seleção natural, é chocante de presenciar. Mas a decisão minha e da Francisca de vir morar e viver em relação direta com a natureza expõe minhas convicções e crenças no Mais Alto e na Justiça Divina, me obrigando a repensar profundamente minha identidade interior, meus conceitos de valores e minha fé.
Pois quando os amigos acharem um ninho entre as ramagens de uma árvore, afastem-se se não tiverem coração forte, pois estará prestes a se desenrolar mais um fantástico ato da vida, com direito ao milagre do nascimento, vida e morte.
E o chapéu de palha, tá lá em cima da mangueira, a me lembrar de que, a vida aqui no sítio como eu disse numa postagem anterior, “É osso”.
Durval

O defunto era menor


Um amigo inesquecível do meu pai foi o Seu Edson. Baixo, branco, com barba fechada, sempre feita, que lhe dava um sombreado verde em todo rosto.Fala mansa, sorriso fácil. Me chamava de Vavá como todos lá em casa. Era companheiro do papai lá no escritório da Fábrica. Pertenciam à casta mais nobre dos operários: Eram "Escriturários."
Seu Edson tomava umas e outras. Quando estava a fim de tomar umas e outras, desaparecia de casa. Vez ou outra, passava lá em casa pra conversar com papai. Isso quando não desapareciam juntos.
Falava pouco e quando estava bebendo ia calando. Ficando vermelho e calando. Dava nos nervos ver os dois bebendo. Papo nenhum. Aqui e acolá o Seu Edson dizia: ”Adolfo...” e papai respondia, depois de uma eternidade: “Edson...” E assim ia o papo dia a fora.
Vez ou outra, a mulher dele passava lá em casa pra saber de notícias de suas andanças. Será que ele tinha aparecido por lá? “Quando chegar em casa, ele me paga!” . Era briga certa. Certa mas sem futuro porque o Seu Edson não abria a boca. Voltava prá casa dele em “ponto morto”. Quieto e calado. Calado e liso, pois tinha torrado o dinheiro todo na malvada da “Pitu”. E o silêncio e falta de reação, matava a mulher dele de raiva.
Um dia Seu Edson chegou lá em casa com o sorriso mais malandro que a gente podia se lembrar. Contou a papai que tinha passado em Casa Amarela, o bairro de quem dependíamos para o comércio e tudo o mais, e tinha comprado e pago um caixão de defunto e mandado pra casa dele. Estava se divertindo com o choque que a mulher dele ia tomar, com o presente inesperado. Tava bêbado e falante. Só não sabia se naquelas alturas, já tinham entregado ou não o caixão de defunto. Não queria chegar em casa antes da encomenda.
-“Vavá, vai lá em casa pra ver o movimento!.” E lá fui, disfarçando, com uma garrafa na mão, fingindo que ia comprar óleo a retalho na mercearia do Seu Nelson. O Seu Edson morava na Carrapateira, rua de trás da nossa, rua comprida, lá no meio do quarteirão.
Tava todo mundo na porta das casas, nas calçadas e um montão na frente da casa do Edson. Eu passei por mais um curioso. Prá todos menos prá mim que parecia que todo mundo sabia que o Seu Edson estava lá em minha casa. A porta tava fechada.
Voltei e dei o relatório do que vi. Aí o Seu Edson perdeu o sorriso. Ficou sério e calado. Bateu a fraqueza. Não sei qual o trecho da narrativa que mexeu com ele: se foi a porta fechada ou a quantidade de gente que estava na rua esperando por ele.
E disse: “Adolfo, dessa vez eu não volto prá casa de jeito nenhum.” Nem papai se oferecendo para ir com ele, convenceu. Ficou por ali esperando escurecer e se mandou.
Nunca soubemos na verdade o desenrolar da história. Seu Edson passou um tempo sem ir lá em casa e quando foi, passou a falar muito menos ainda. Nunca falou o que aconteceu quando ele voltou prá casa nem sobre o choque que a mulher tomou com a brincadeira. Sabe-se que a briga foi feia e que a mulher dele queria fazê-lo entrar no caixão na tapa. E que ele errou no tamanho do caixão que era para defunto menor.
Durval