segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Juro que vi!


O campinho.
Em frente da nossa casa havia um campinho. Na verdade, era uma clareira nessa época cercada de arbustos, ao pé de um monte erodido pela água da chuva. A face da montanha que dava para o campinho era cortada na vertical ou quase e desmoronada pela constante retirada do barro e efeito do tempo. A gente chamava de “A barreira”. Lá em cima da barreira, uma floresta de eucaliptos enormes. Do lado de cá do campinho tinha nossa rua.
E tinha as luas. As noites enluaradas naquele campinho foram inesquecíveis.
Um tempo desses, eu estava viajando pelo interior do Piauí e pernoitei no Hotel Fazenda, na entrada de Sete Cidades. À noite, depois do jantar, quase ninguém hospedado, dei um giro por ali e notei perplexo, a noite linda e a luz intensa da lua cheia. Fui transportado imediatamente para aquelas noites da minha infância. Saí perambulando, afastando-me das poucas luzes da recepção do hotel, caminhei pelo campo, sentindo na pele a luz da lua que teimava em passar pelas brechas das copas imensas das árvores tentando captar o eco dos risos dos amiguinhos do passado. Momento mágico. Retorno à infância.
Mas, voltando ao papo, nessas noites de lua, mais do que nas outras noites, a gente caia na poeira, no jogo de bola. No escuro. Só ou bastante iluminados pelo luar. Quem morou em local de pouca iluminação, e numa época onde o céu era mais límpido, sabe o que quero dizer. Muitas estrelas. Lua no céu e a gente jogando bola, na areia, na poeira, sem camisa, descalço, saudáveis, suados e sujos.
A barreira era nossa companheira de brincadeiras o dia inteiro. Pular pelas enormes e profundas fendas causadas pela erosão, brincar de ver castelos nas pedrinhas que ficavam aprumadas num montinho, quando a chuva removia o barro em volta e à noite a barreira servia de arquibancada ou para guardarmos nas suas fendas, nossas roupas e chinelos enquanto jogávamos bola, brincávamos de pega-pega ou outra besteira qualquer.
Pois numa noite daquelas, vi dentro de um buraco velho conhecido nosso, sempre utilizado para guardar roupas e afins, com cerca de três palmos de circunferência, talhado num trecho da barreira de corte vertical, um menino enrodilhado no buraco, fumando. A fumaça subia do cachimbo serpenteando a noite brilhando com a luz da lua. E foi a fumaça que me chamou a atenção para o menino. Fiquei paradão e lembrei-me da surra que ele ia levar se a mãe dele descobrisse. E ele não era conhecido nosso.
Chamei um dos colegas que estava por perto e falei: “Olha ali! Tem um menino fumando ali no buraco!”. O cara olhou e entretido seguiu em frente na brincadeira. Olhei de novo o menino não estava mais lá.
O tempo passou, eu cresci, o campinho foi destruído, a barreira derrubada pelo progresso e a visão do menino dentro daquele buraco que não cabia ninguém, vez ou outra retorna na minha mente.
E aqui com sessenta e cinco anos, estou de volta àquele tempo vendo com os olhos da alma aquela noite, dizendo pro menino que eu fui: Eu juro que vi!

Durval