
Um amigo inesquecível do meu pai foi o Seu Edson. Baixo, branco, com barba fechada, sempre feita, que lhe dava um sombreado verde em todo rosto.Fala mansa, sorriso fácil. Me chamava de Vavá como todos lá em casa. Era companheiro do papai lá no escritório da Fábrica. Pertenciam à casta mais nobre dos operários: Eram "Escriturários."
Seu Edson tomava umas e outras. Quando estava a fim de tomar umas e outras, desaparecia de casa. Vez ou outra, passava lá em casa pra conversar com papai. Isso quando não desapareciam juntos.
Falava pouco e quando estava bebendo ia calando. Ficando vermelho e calando. Dava nos nervos ver os dois bebendo. Papo nenhum. Aqui e acolá o Seu Edson dizia: ”Adolfo...” e papai respondia, depois de uma eternidade: “Edson...” E assim ia o papo dia a fora.
Vez ou outra, a mulher dele passava lá em casa pra saber de notícias de suas andanças. Será que ele tinha aparecido por lá? “Quando chegar em casa, ele me paga!” . Era briga certa. Certa mas sem futuro porque o Seu Edson não abria a boca. Voltava prá casa dele em “ponto morto”. Quieto e calado. Calado e liso, pois tinha torrado o dinheiro todo na malvada da “Pitu”. E o silêncio e falta de reação, matava a mulher dele de raiva.
Um dia Seu Edson chegou lá em casa com o sorriso mais malandro que a gente podia se lembrar. Contou a papai que tinha passado em Casa Amarela, o bairro de quem dependíamos para o comércio e tudo o mais, e tinha comprado e pago um caixão de defunto e mandado pra casa dele. Estava se divertindo com o choque que a mulher dele ia tomar, com o presente inesperado. Tava bêbado e falante. Só não sabia se naquelas alturas, já tinham entregado ou não o caixão de defunto. Não queria chegar em casa antes da encomenda.
-“Vavá, vai lá em casa pra ver o movimento!.” E lá fui, disfarçando, com uma garrafa na mão, fingindo que ia comprar óleo a retalho na mercearia do Seu Nelson. O Seu Edson morava na Carrapateira, rua de trás da nossa, rua comprida, lá no meio do quarteirão.
Tava todo mundo na porta das casas, nas calçadas e um montão na frente da casa do Edson. Eu passei por mais um curioso. Prá todos menos prá mim que parecia que todo mundo sabia que o Seu Edson estava lá em minha casa. A porta tava fechada.
Voltei e dei o relatório do que vi. Aí o Seu Edson perdeu o sorriso. Ficou sério e calado. Bateu a fraqueza. Não sei qual o trecho da narrativa que mexeu com ele: se foi a porta fechada ou a quantidade de gente que estava na rua esperando por ele.
E disse: “Adolfo, dessa vez eu não volto prá casa de jeito nenhum.” Nem papai se oferecendo para ir com ele, convenceu. Ficou por ali esperando escurecer e se mandou.
Nunca soubemos na verdade o desenrolar da história. Seu Edson passou um tempo sem ir lá em casa e quando foi, passou a falar muito menos ainda. Nunca falou o que aconteceu quando ele voltou prá casa nem sobre o choque que a mulher tomou com a brincadeira. Sabe-se que a briga foi feia e que a mulher dele queria fazê-lo entrar no caixão na tapa. E que ele errou no tamanho do caixão que era para defunto menor.
Durval

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