
Tudo passa...
Um ensinamento básico para a paz interior, é a transitoriedade. É básico, mas pra mim é um dos mais difíceis de vivenciar.
Aqui no sítio onde os dois leitores já devem ter descoberto que é minha penúltima morada, temos diariamente lições fantásticas, se tivermos atentos para vê-las.
Refiro-me a transitoriedade das existências. Das manifestações de vida. Pelo menos de algumas porque esses anos todos, descobri que o sapo além de viver muito, dá um jeito de ninguém descobrir seu corpo. Onde será que os sapos vão pra morrer? Mas isso é assunto para outro encontro.
Tenho sido premiado pela vida com a chance de assistir a evolução de algumas espécies que dividem nosso espaço. Aqui no sítio todos (menos as gatinhas) cumprem uma lei estabelecida por nós mesmos: Ninguém mata nada. Nada mesmo. Só muriçoca quando a população está alta e resolvem extrair nosso sangue. Aí é pura atitude de defesa pessoal. Barata, só se for de lixo. E se tiver excursando em local diferente do lixo. Aquelas de plantas têm passagem garantida. Às vezes, só a mudamos de lugar, pra ela não atanazar por baixo das cobertas. Formigas têm passe livre. Nem incomodam a gente, nem a gente as incomoda. Quando achamos uma casa de marimbondo e a gente não se esforça nem um pouco para achar, a gente os deixa em paz desde que não seja em lugar que nos traga algum risco de esbarrarmos neles involuntariamente.
Então, já deu pra perceber o santuário que se estabeleceu nesse cantinho. Então, de certa forma, recebemos deles uma retribuição: Também ninguém nos incomoda. De verdade. Eu limpo os coqueiros, tiro palhas, tiro cocos verdes os coqueiros são locais preferidos daquelas formigas pretas e grandonas com bundinha cinza que aqui chamam de “sarassa” e a minha mãe chamava de “trinca-cunhão”, cuja ferroada dá até arrepio e calombo, e nunca sou ferroado.
Temos todo tipo de inseto, teto cheio de morcegos, todo tipo de inquilinos e não sofremos nenhum incômodo. Abelha voa em torno de nós e não ferroa.
E não me chamem de exagerado porque tá a Fca aqui de prova.
Então, já deu pra perceber que temos uma certa familiaridade com os habitantes do pedaço. Pois é. Esse é o problema. O relógio biológico deles muitas vezes é mais apressado do que o nosso. A vida pra eles passa muito depressa. Hoje, vemos aquela parenta do gafanhoto que a gente chama de “esperança” voando, distribuindo esperanças por aí. Amanhã, a encontramos se debatendo, sendo comida viva pelas formigas.
Doloroso é o final da vida das borboletas. Temos uns pés de maracujá aqui atrás, ali onde tem as piscinas dos sapos. Eles esse ano não conseguem florir porque as borboletas decidiram fazer dali o berçário das lagartinhas, suas crias. E embora os maracujás nunca que frutifiquem, temos em compensação um criatório de borboletas. E se andar com a boca aberta ali por trás, o ditado “boca fechada não entra mosca”, vai mudando pra “boca fechada não entra borboleta”! Sem exagero. São lindas. Mas vivem pouco.
Um dia, elas estão embelezando a manhã, borboleteando por ali, enchendo as vistas dos sapos que as olham com aquele olhar desejoso, com todo o espaço do mundo ao seu dispor, donas absolutas do ar, das árvores, do céu, asas fortes, acasalando e providenciando futuras largatinhas pra comer meus maracujás...E no outro dia, estão prostradas no chão, tentando voar, com as asas estrupiadas, rasgadas, sem entender o que está acontecendo, num esforço imenso pra sair daquele solo que nunca foi para ela tão pegajoso, tão quente, tão presente, tão mortal.
E a gente que as ama, vendo seu sofrimento, aqui e acolá, recolhe-a na ponta do dedo prontamente aceito por ela, e a deposita numa folha verde, protegida pela sombra, talvez, aquela mesma folha que ontem a abrigou num momento de descanso dos seus vôos.
Assim também é a nossa vida. Deveríamos aprender com os bichinhos que têm um tempo menor de vida do que o nosso, cujo drama de nascimento, reprodução, aprendizagem e retorno à Fonte, se dá em poucos dias. Aprender a aproveitar o tempo que nos resta de forma a perpetuar o bem, o amor, a paz, a concórdia, aprender a extrair do momento presente toda a beleza que ele encerra, aprender que o passado e o futuro são meras ilusões e abrir os olhos para a pessoa que está ao nosso lado, nossa companheira, nossa mãe, nosso pai, nosso irmão. E o que são todos senão nossos irmãos e companheiros momentâneos de viagem? Dessa viagem tão linda que chamamos vida e que não damos a mínima para ela. Desperdiçamos muito tempo com mágoas, queixas, recriminações e pouco tempo com perdão, com afeto.
O caso é que nosso irmão que não reconhecemos sua fragrância, sua importância na nossa vida, que está ao nosso lado o tempo todo e a gente se esquece de abraçar, de dizer “eu te amo”, de curtir um momento besta qualquer, um dia, assim como nossas borboletas, estará impossibilitado de voar. Será colhido pelo tempo e irá habitar noutro espaço onde não precisará do nosso amor.
Olhe o céu. Ele está bonito agora. Nesse momento. Olhe em volta. Ainda dá tempo de voar. Ainda dá tempo de admirar o vôo do seu irmão. Ainda é hoje. Ele ainda te ouve. Ainda pode receber um beijo, um sorriso, uma chacota, uma atenção qualquer. Amanhã, (e esse amanhã chega), não haverá mais tempo.
Eu por aqui vou vendo minhas borboletas irem e virem na dança eterna da vida, admirando meus pardais, meus rouxinóis, meus anuns (égua!) curtindo meus amiguinhos, Huck e Bethoven, minhas gatinhas, amando minha corajosa amiga e eterna companheira, a Fca, e trocando um dedo de paz com todos os que buscam minha companhia.
E tô atrás de descobrir onde os sapos se escondem quando recebem o chamado para o Eterno. Nesses anos, só achei dois, em posição solene de quem está meditando, duros e quietos como todo bom defunto. Ou vão pra algum canto escondido, ou não morre ninguém por aqui. Que bom!
Durval.

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